- Documentos atribuídos à entidade argentina ATFA são considerados falsos; Diego Souza foi registrado pela CBF com uma dessas licenças. Foto: Divulgação | Edição: Edmais Esporte.
Investigação revela esquema de certificados sem cursos e coloca em dúvida a documentação usada por ex-jogadores
Uma investigação do UOL revelou um esquema envolvendo Alejandro Mancuso, ex-jogador de Flamengo e Palmeiras e ex-auxiliar de Diego Maradona na seleção argentina.
Segundo a apuração, ele oferecia licenças de treinador atribuídas à ATFA por cerca de R$ 100 mil.
Os documentos C, B, A e PRO eram enviados em poucos dias, sem que os compradores cumprissem a formação exigida.
A ATFA afirma que Mancuso nunca teve vínculo com a entidade e que os certificados são falsos.
O caso ganhou nova dimensão nesta quinta-feira (8), após a confirmação de que Diego Souza foi registrado no BID da CBF usando uma dessas licenças.
Como funcionava o esquema
De acordo com a investigação, Mancuso se apresentava como uma espécie de representante internacional da ATFA e oferecia um chamado “trâmite urgente”. A promessa era obter quatro níveis de licença sem passar pelo processo regular de formação.
O pacote incluía as licenças C, B, A e PRO, sendo a última apresentada como certificação internacional. O valor informado pela reportagem chegava a R$ 100 mil, com os documentos enviados pelo correio em até dez dias.
A formação regular da ATFA exige cursos, avaliações e etapas presenciais. A investigação identificou documentos com QR codes inválidos, erros de grafia, datas retroativas e outras inconsistências.
A própria ATFA declarou que Mancuso não integra sua diretoria, não possui cargo na instituição e nunca recebeu autorização para representá-la. A entidade também afirmou que qualquer documentação enviada por ele em seu nome é alheia à instituição.
Quem é Alejandro Mancuso
Mancuso teve carreira como jogador na Argentina e também passou por Palmeiras e Flamengo. Pela seleção argentina, disputou a Copa do Mundo de 1994 e foi campeão da Copa América de 1993.
Depois de se aposentar, trabalhou como auxiliar de Diego Maradona na seleção argentina durante a Copa do Mundo de 2010. A relação entre os dois terminou posteriormente em meio a acusações e conflitos.
A investigação aponta que a reputação construída no futebol ajudou Mancuso a conquistar a confiança de jogadores e ex-jogadores interessados em iniciar carreira como treinadores.
Mancuso nega ter vendido documentos falsos e afirma que atuava apenas como intermediário. A ATFA, entretanto, sustenta que ele nunca teve autorização para agir em nome da entidade.
Quem são os envolvidos
Entre os nomes citados na investigação estão Thiago Silva, Luiz Gustavo, Diego Lugano, Paolo Guerrero, Roberto Carlos, Felipe Melo, Alex de Souza, Dejan Petkovic e Paulinho. Os relatos são diferentes entre si, e alguns afirmaram ter acreditado que estavam adquirindo uma formação válida.
Alex de Souza, atual técnico do Athletic, reconheceu que adquiriu o documento e classificou a decisão como um erro. Ele afirmou que não utilizou a licença argentina para trabalhar.
Felipe Melo percebeu irregularidades, retirou a referência à ATFA de suas redes sociais e conseguiu o reembolso do valor pago em setembro de 2025. O nome dele chegou a aparecer em uma investigação policial na Argentina, posteriormente encerrada por falta de provas.
A situação de cada envolvido precisa ser analisada individualmente. A compra ou recebimento de um documento falso não significa, por si só, que todos tenham participado conscientemente de uma fraude.
Diego Souza é o caso que chegou ao BID da CBF
O caso ganhou uma nova dimensão nesta quinta-feira (8). Diego Souza, ex-jogador de Grêmio, Vasco e Palmeiras, foi registrado como treinador no BID da CBF utilizando uma licença PRO atribuída à ATFA.
O documento foi recebido por Diego em 2023, quando ele ainda era jogador do Grêmio. Segundo seu relato, Mancuso afirmou que atletas renomados poderiam obter a licença sem seguir o processo tradicional.
Diego iniciou sua carreira profissional como treinador no Joinville, em agosto de 2026. Ele comandou a equipe pela primeira vez em 30 de agosto, na derrota por 4 a 2 para o Marcílio Dias, pela primeira rodada da Copa Santa Catarina.
A ATFA informou que o nome de Diego não consta em seus registros oficiais. A CBF, por sua vez, afirmou que cabe aos clubes verificar a autenticidade dos documentos apresentados para registro, conforme o artigo 13 do Regulamento Geral de Registros da entidade.
Quem são as vítimas?
Os jogadores que receberam documentos falsos podem ser considerados potenciais vítimas de estelionato, caso fique comprovado que não tinham conhecimento da falsificação.
Alguns deles afirmaram que acreditaram na proposta apresentada por Mancuso. Outros reconheceram que buscaram uma forma mais rápida de obter a certificação, sem imaginar que os documentos não tinham validade.
A investigação também mostra que alguns atletas enviaram fotos segurando os certificados recebidos. Para eles, a expectativa era ter uma documentação válida para a futura carreira como treinador.
Quais são os desdobramentos?
O principal impacto esportivo envolve os profissionais que utilizaram os documentos para obter registro ou trabalhar como treinadores.
O caso de Diego Souza é o primeiro ponto de maior repercussão porque a licença atribuída à ATFA foi utilizada no processo de registro no BID da CBF. Agora, a situação documental do treinador e os procedimentos adotados pelo Joinville entram no centro das discussões.
Na esfera judicial, uma investigação realizada na Argentina em 2025 sobre a suposta emissão irregular de licenças foi arquivada em dezembro daquele ano por inexistência de crime, segundo reportagens sobre o caso. A nova repercussão, porém, pode provocar novas análises sobre os documentos e sobre eventuais responsabilidades individuais.
A apuração também pressiona clubes, federações e entidades responsáveis pela formação de treinadores a reforçarem a conferência das certificações apresentadas.
O caso ainda está em desenvolvimento, e novas informações podem alterar a situação individual de cada profissional citado.
O que já está confirmado
- Alejandro Mancuso é apontado pela investigação como responsável por oferecer as licenças.
- A ATFA nega qualquer vínculo com Mancuso e considera os documentos falsos.
- Os certificados envolviam os níveis C, B, A e PRO.
- O valor informado na investigação chegou a R$ 100 mil.
- Diego Souza utilizou uma dessas licenças para registro como treinador no BID da CBF.
- Outros ex-jogadores foram citados como compradores ou destinatários dos documentos.
- Alguns afirmam que foram enganados; outros admitem ter buscado uma forma mais fácil de obter a certificação.
- Felipe Melo desconfiou da documentação e recebeu o dinheiro de volta.
- A investigação argentina mencionada nas reportagens de 2025 foi arquivada.
- A situação de cada envolvido deve ser analisada separadamente.







