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Classificação histórica do MAC: roteiro que só o futebol explica

Um sábado de aleluia inesquecível para a torcida maqueana, com drama, teimosia, resposta em campo e uma classificação construída no limite, na coragem e na insistência de quem não desistiu.

Por Ednelson Cunha — Colunista Edmais Esporte 05/04/2026

Do fracasso ao caminho do acesso em um piscar de olhos

Um sábado de aleluia feliz para a torcida maqueana. Marília 2 a 0 no EC São Bernardo e, nos pênaltis, 4 a 1 para o Tigrão, que rugiu alto após o confronto. Uma classificação histórica, em um jogo difícil, daqueles que o adversário valoriza cada centímetro do campo e endurece cada jogada.

E essa classificação passa, obrigatoriamente, por algo novo. Algo que estava dentro do elenco o tempo todo, mas que simplesmente não era utilizado. Um elenco forte, com qualidade, mas que durante toda a primeira fase foi limitado por escolhas repetidas, até mesmo contra adversários mais fracos.

O algo novo apareceu quando mais precisava: Carlos Alberto e João Lucas juntos no meio-campo.

Mas até chegar nisso, o torcedor sofreu. E muito.

O primeiro tempo foi desconfortável. Jogo travado, previsível, com excesso de cruzamentos e pouca criatividade. A bola insistia em ir para a área sem direção. Faltava construção, faltava clareza. O EC São Bernardo, bem postado, teve a melhor oportunidade com Kayke Alves. E foi só.

No Estádio Bento de Abreu, com 4.630 torcedores pagantes e renda de R$ 66.940,00, o clima era de apreensão: aniversário da cidade à vista e o risco de mais um fracasso batendo à porta.

Foi então que, no segundo tempo, veio a tentativa do diferente.

Nada de substituições protocolares, nada de seis por meia dúzia. A decisão foi clara: colocar os dois jogadores mais técnicos do elenco juntos. Carlos Alberto e João Lucas. Demorou 17 rodadas para isso acontecer. Demorou, mas aconteceu.

E o resultado veio praticamente no primeiro lance.

Com um minuto, João Lucas fez a jogada, finalizou, o goleiro espalmou. No escanteio, ele mesmo levantou na área para Lázaro abrir o placar. Lázaro, inclusive, aposta do treinador na vaga de Guilherme Café, fortalecendo o jogo aéreo.

O 1 a 0 deu alívio, mas não resolveu. O jogo seguiu tenso, arrastado, com o resultado mínimo sendo sustentado no limite.

Outra decisão importante veio aos 33 minutos do segundo tempo. Saída do lateral Douglas Dias e entrada do atacante Cirilo. Uma mudança de risco, de tudo ou nada. E Cirilo incomodou, brigou, empurrou a defesa adversária para trás.

Mas a história do confronto estava guardada para o último suspiro.

Do risco do fracasso ao heroísmo de um grupo resiliente. Da tensão à explosão. Da dúvida à consagração.

Aos 96 minutos e 58 segundos, João Lucas apareceu mais uma vez. Cruzamento da esquerda, desvio de cabeça e Lucas Lima, iluminado, completou para o gol aos 97 minutos. Um gol simbólico, nos 97 anos da cidade. Um daqueles lances eternos.

E aí vieram os pênaltis.

E apareceu mais um herói.

Wagner Coradin defendeu duas cobranças. Segurança, personalidade e decisão. O Marília foi perfeito nas cobranças: 100% de aproveitamento. Placar final: 4 a 1.

Explosão no Abreuzão. Festa alviceleste. Embalo para o acesso.

Uma vitória sofrida, resiliente, daquelas que mudam o ambiente. O time cresce moralmente. Cresce em confiança. Cresce para aquilo que realmente importa: o acesso.

E o jogo também deixa recados.

João Lucas não só jogou. Ele mandou um recado claro com a bola no pé. Ao lado de Carlos Alberto, o time é outro. E isso não passou despercebido pelo torcedor.

Cirilo se firma como opção real ao lado de Lucas Lima. Enquanto isso, nomes como Marcondelle e Gustavo Custódio, importantes no início do campeonato, já não apresentam o mesmo rendimento técnico.

É uma classificação que mostra força, mas também escancara aprendizados.

No ano passado, o Marília caiu lutando. Contra o Sertãozinho, mesmo com um jogador a menos após a expulsão de Fumaça, o time jogou demais, mas não conseguiu o objetivo.

Dessa vez, foi diferente.

Não teve tanta facilidade para criar. Não foi dominante. Mas foi eficiente. E no futebol, isso pesa.

O jogo fica marcado na história do clube. Pela explosão no apito final. Pela emoção. Pela data. Pelo contexto.

E principalmente pelo roteiro.

Quando o torcedor do EC São Bernardo já comemorava a classificação, o futebol mostrou, mais uma vez, que não permite roteiro antecipado.

Lembrou o Brasileirão de 1986, no Brinco de Ouro da Princesa. O Guarani vencia o São Paulo por 3 a 2. A torcida gritava “é campeão”. A transmissão já embalava o hino. No último lance, lançamento longo, desvio de Pita e Careca acertou um chute histórico: 3 a 3.

Depois, nos pênaltis, o São Paulo foi campeão.

O futebol tem dessas.

E o Marília viveu exatamente isso.

Do fracasso ao possível acesso, em um piscar de olhos.

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